sábado, 15 de dezembro de 2012

Fantasmas Fibonacci - Ousadias (5)

Fantasmas Fibonacci

Fantasma I

A
Casa
Vazia

Nem cheiro nem luz
Do passado - alguns vestígios:
A mobília fantasma coberta de lençóis

Reverbera os ecos de um divórcio mal assombrado - separação sem bens

Fantasma II

E
Cada
Um se foi

Seguiram rumo
Ao solitário destino:
De sofá em sofá até achar novo ninho

E os pés solitários - almas penadas - na madruga sem ter um mimo

Fantasma III

Mas
Grata
Surpresa

Aguardava-lhes:
Navegando, ambos errantes
Encontraram-se enfim - ao acaso - no mesmo Porto

"Assombração é viver sem teu corpo" - disseram... deu casório outra vez

F.
BULA:
Ousadias (5)
Fantasmas Fibonacci

Fantasma: alma penada, espírito desencarnado, assombração - uma metáfora para algo que não está presente, mas está - ainda ronda.

Fibonacci: Odeio ficar me repetindo, já falei do danado aqui:

Um esquema parecido com a Ousadias (2) - Loja De Departamentos, com a diferença que desta vez os versos não são livres - tem um número fixo de sílabas. A estrutura silábica dos versos dessa Ousadia segue a Sequência Fibonacci:

A = 1
Casa = 2
Vazia... = 3

Nem cheiro nem luz = 5
Do passado - alguns vestígios = 8
A mobília fantasma coberta de lençóis = 13

Reverbera os ecos de um divórcio mal assombrado - separação sem bens = 21

Enfim, mais uma maluquice formal.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Ganhar o pão – Metalinguagens (3)

Ganhar o pão
(mais uma à Quintana)

Passarinho jornalista...
"Da poesia não se ganha o pão"
Danado, dela não viveu - avuô!

F.
BULA:
"Não faça disso [a poesia] uma profissão."
...
Foi um bom conselho, D.

Mais do Passarinho jornalista:
http://pilulapoetrix.blogspot.com.br/2012/09/simples-voejo_15.html

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Antídoto - Metalinguagens (2)

Antídoto

Escrever sobre a dita: antídoto
Veneno lento... nada cura
'Inda mata a maldita

F.
BULA:

“Todas as substâncias são tóxicas.
A dose correta é que diferencia um veneno de um antídoto”
Paracelso 
[pseudônimo de Phillipus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, 
considerado o “Pai da Toxicologia Moderna"]

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Prostração - Metalinguagens (1)

Prostração

Pânico: prostra-se perigosamente
Pensa... pena pesada: padece
Parvo punho poeta!

F.

BULA:
"Há uma insaciável vontade de escrever,
mas falta inspiração, o que fazer?
Lutar, continuar ou perecer,
nesse mundo de ilusões padecer...
[...]
...A poesia inexistente no poeta,
é tão desconexa quanto a forma,
que busca a ilusória perfeição,

lateja em mim a dor do amor."


Arthur Melo

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

No Meu Porto

No Meu Porto
Imóvel feito a grama cor de mate Um moinho canta meus amores Silbando triste una milonga 
F.
Parque Moinhos De Vento "Parcão"Porto Alegre
BULA:Pingo À SogaVitor Ramil
"Quando penso em ti rincão queridoDeixo estirado o maneador na estacaE me recordo daquela indiada tacaE de muitas mágoas que tenho sofrido
À tardinha quando o sol se escondeVem a saudade me mudar de pastoEu a cabresto vou deixando o rastroE fico pensando sem saber aonde
Lusque-fusque, vejo o fogo no galpãoOuço a cordeona num soluçar tristonhoLonge do pago me representa um sonhoE sinto bater forte no peito o coração
Ouço o cincerro da velha égua-madrinhaQuero-quero gritando lá no baixoFico alegre quando alguém me quebra o cachoE vou ver a china linda que foi minha
De madrugada, ao romper da auroraCheio de pranto que meu peito afogaTenho vontade de rebentar a sogaE ir relinchando pela estrada afora
Lusque-fusque, vejo o fogo no galpãoOuço a cordeona num soluçar tristonhoLonge do pago me representa um sonhoE sinto bater forte no peito o coração"

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A Mala Vazia

A Mala Vazia

Deserta repousa
Espera boquiaberta encher-se
De saudades e afagos infinitamente seus

F.
BULA:
"Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci. 

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim."

Grandes São os Desertos, e Tudo é Deserto
Álvaro de Campos [heterónimo de Fernando Pessoa] in "Poemas"

domingo, 9 de dezembro de 2012

Deserto Em Mim (6)

Deserto Em Mim (6)

Tornou-se o deserto...
Beba em si o rio que corre
Adentro-íntimo: entorne a última gota - amor certo

F.
BULA:
Sara Tavares
Caminhanti

Caminhanti é caminho
Caminho di caminhanti
No verso e inverso 
Verbo ser é verbo nascer

Pé na tchon, homi na caminho

Distancia é miragem
Distancia é poesia

Bloqueio inflama cansera

Inclina ladeira sima água 
Ta disagua sima mar ta agita
Cês fundura na maré

Sima ponta dedo
Ta dispentia cabelo
Na kukuruto kenti cafuné

Mundo é movimento
Vida viva remexida

Pa pura tamperu
E aguça paladar
Na bico di sereia
Na ponta di lingua

Di alma, Sabor, Dor
Amor, Cor, Beleza em
Flor

sábado, 8 de dezembro de 2012

Deserto Em Mim (5)

Deserto Em Mim (5)

Deserto
Desapodera-te
Deserta a alma... torna-te desperto

F.
BULA:

"Tudo quanto penso,


Tudo quanto sou


É um deserto imenso


Onde nem eu estou.


Extensão parada


Sem nada a estar ali,


Areia peneirada


Vou dar-lhe a ferroada


Da vida que vivi."

Tudo quanto penso
Alvaro de Campos
[Heterônimo de Fernando Pessoa]

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Deserto Em Mim (4)

Deserto Em Mim (4)

Ascende
[E]leva o fogo em si
[S]em chamas - coração ainda ardente 

F.
BULA:
"De tanto olhar para longe,
Não vejo o que passa perto,
Meu peito é puro deserto.
Subo monte, desço monte.

Eu ando sozinha
Ao longo da noite.
Mas a estrela é minha."

Canção Da Tarde No Campo
Cecília Meireles

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Deserto Em Mim (3)

Deserto Em Mim (3)

Sol e um pito de sina
Fogo baixo: cozinha a vista
Chamusca uma pitada de lucidez

F.
BULA:
“Any thoughts of guilt, any feelings of regret, had faded. 
The desert had baked them out.” 
The Gunslinge - Stephen King

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Deserto Em Mim (2)

Deserto Em Mim (2)

Um oasis - até parece
Mentira: você aparece
Miragem... desaparece

F.
BULA:
"Não há nada no deserto, e nenhum homem precisa de nada. "
Lawrence da Arábia 

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Deserto Em Mim (1)

Deserto Em Mim (1)

Tornou-se o próprio deserto...
Mas não olvides: o amor é certo
Adentro-íntimo: muito mais que perto

F.
BULA:
"Para estar junto não é preciso estar perto, e sim do lado de dentro"
Leonardo Da Vinci

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Céu

Céu

Repousei os lábios 
E dancei o céu 
Da tua boca

F. 
BULA:
"Fiz minha casa no teu cangote
Não há neste mundo o que me bote
Pra sair daqui

Te pego sorrindo num pensamento
Faz graça de onde fiz meu achego, meu alento
E nem ligo

Como pode, no silêncio, tudo se explicar?!
Vagarosa, me espreguiço
E o que sinto, feito bocejo, vai pegar

Fiz minha casa no teu cangote
Não há neste mundo o que me bote
Pra sair daqui"

Cangote
Céu

domingo, 2 de dezembro de 2012

Praesagium

Praesagium

...e todo passado que sentes por mim é presságio:
Reminiscências - destino vind'ouro
Volvendo em adágio

F.
BULA:
Presságio

Do latim: Praesagium
1) Pressentimento, previsão, prognóstico, vaticínio. 
2) Fato ou sinal por que se adivinha o futuro. 
3) Conjetura que se tira de um fato ou sinal. 
4) Agouro.

Tempo

Uma discussão infinita... particularmente não estou tão certo sobre o conceito linear de tempo - as paixões, o amor e a consciência (ou espírito se alguém assim preferir) desconhecem a linearidade. Em algumas culturas orientais e diferentes abordagens da física moderna ocidental o passado, presente e futuro se fundem, são inseparáveis. Me parece bem plausível que o conceito de tempo linear. 

Na poesia, a relação forma-tempo, para mim, também é relativa. Quando se encontra o tempo correto, a cadência adequada, pouco importa se a forma é deformada (Beethoven que o diga). Isso tudo para justificar algumas sílabas a mais nesse terceto que não é mais poetrix (ainda sinto essa necessidade infantil de me justificar, mas isso tem data marcada para acabar).

sábado, 1 de dezembro de 2012

O Banquete

O Banquete

A carne suculenta...
Do teu vinho lento eu sorvo
A última gota - le dessert: outra taça, s'il vous plaît...

F.
BULA:

"É preciso estar sempre embriagado.
Isso é tudo: é a única questão.
Para não sentir o horrível fardo do tempo que lhe quebra os ombros e o curva para o chão, é preciso embriagar-se sem perdão.
Mas de que?
De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser.
Mas embriague-se."
[...]

Charles Baudelaire

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Terre De Feu

Terre De Feu

Um beijo de Feu
Sublinha um nome há séculos 
Grafado à tua boca - ma terre prometida

F.
BULA:
Terre De Feu

1)Terra do fogo, em francês. 
2) Um batom... é sério.
3) Coincidentemente [?] Feu [fogo] também se refere à uma alcunha...

"Pôr uma alcunha a alguém
É como pôr uma tatuagem"

[...]
Antonio Silva

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Melodrama

Melodrama

Minha Dama, joga a trama na lama
Qu'eu jogo a fama na grama
E juntos - fogo na cama

F.
BULA:

"Cause for you I could win
For you I could trust myself
And for you I could throw with abandon
Old glories all feign to the wind
Cause I never left you
And you never let me go"

Races
Glen Hansard

"E quando sai de mim
Leva meu coração
Você é fogo
Eu sou paixão"

Fogo e Paixão
Wando

Porque apesar de romântico todo mundo tem um lado Wando também.
Salve Wando imortal!